A menos de duas semanas do primeiro turno, a estratégia de ressuscitar uma fala antiga da governadora Raquel Lyra acabou colocando mais combustível em uma disputa que já vinha mostrando sinais de reação da candidata à reeleição.
Sabe-se bem que, na reta final de uma campanha eleitoral, adversários fazem de tudo para desgastar a imagem de quem está do outro lado. Em Pernambuco, a estratégia da campanha de João Campos foi buscar no arquivo um vídeo gravado em maio de 2025, durante uma agenda de Raquel Lyra no Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns.
No vídeo, a governadora faz uma declaração inadequada sobre laqueadura e, posteriormente, reconheceu o erro e pediu desculpas publicamente. A própria Raquel afirmou que a fala não representa sua posição sobre as mulheres e o planejamento familiar.
Até aí, política é política. O problema parece estar no cálculo sobre o efeito que esse tipo de ataque produziria no eleitor.
E os números mais recentes não entregaram exatamente o resultado que a turma do 40 gostaria de comemorar.
Levantamento DataTrends realizado entre 15 e 17 de setembro aponta Raquel Lyra com 46% das intenções de voto, contra 38% de João Campos. Na mesma pesquisa, a aprovação da gestão estadual chega a 67%. No cenário de segundo turno testado pelo instituto, Raquel aparece com 49%, contra 41% de João.
O Datafolha divulgado anteriormente também mostrava Raquel à frente, com 47% contra 42% de João, dentro da margem de erro.
Ou seja: enquanto a oposição procura novas munições no arquivo, a governadora aparece numericamente à frente nas pesquisas mais recentes.
E há outro detalhe que talvez incomode ainda mais os estrategistas do PSB: Raquel não tentou esconder o erro. Admitiu, pediu desculpas e seguiu em frente.
Em política, reconhecer uma fala equivocada pode ser interpretado de maneiras diferentes pelo eleitor. Mas transformar um episódio de 2025 no grande assunto da reta final também carrega um risco: tirar o foco do que está sendo discutido hoje e obrigar o eleitor a comparar propostas, gestão e trajetória.
E talvez seja justamente aí que esteja o problema.
A tentativa de requentar o episódio acontece depois de outros movimentos de desgaste contra a governadora, como as críticas envolvendo o chamado “Gordinho Pro Max”. A pergunta que fica é: quantas vezes é possível reciclar o mesmo tipo de ataque antes que o eleitor simplesmente deixe de prestar atenção?
A política pernambucana entra agora na fase em que cada minuto de propaganda vale ouro. E, quando faltam poucos dias para a urna, campanha negativa pode até gerar barulho — mas barulho não necessariamente vira voto.
A oposição pode continuar procurando vídeos antigos, declarações antigas e episódios antigos. É uma escolha estratégica.
Mas os números disponíveis até aqui contam outra história: Raquel cresceu, João aparece abaixo dela nos levantamentos mais recentes e a avaliação do governo permanece elevada.
Isso não significa que a eleição esteja decidida — longe disso. As pesquisas retratam momentos específicos e apresentam margens de erro diferentes. A disputa continua aberta.
Mas existe uma ironia política impossível de ignorar:
a tentativa de transformar um erro reconhecido em arma eleitoral pode ter acabado oferecendo à governadora justamente aquilo que uma campanha adversária menos gostaria de entregar: a oportunidade de admitir o erro, falar de suas realizações e recolocar a discussão na comparação entre governos.
Enquanto isso, a turma do 40 terá que decidir se continua cavando no passado ou se finalmente apresenta ao eleitor uma discussão sobre o futuro de Pernambuco.
Porque, a esta altura do campeonato, requentar arquivo pode até render clique. O que ainda precisa provar é se rende voto.
● ELEIÇÕES 2026 • PERNAMBUCO
Governo de Pernambuco
O que dizem as pesquisas?
Comparativo dos cinco levantamentos mais recentes disponíveis, com os cenários de primeiro e segundo turno entre Raquel Lyra e João Campos.
Revista Total
Campo: 14 a 17/09/2026
Raquel Lyra
42,61%
João Campos
46,78%
2º turno
Raquel Lyra
42,61%
João Campos
46,67%
1.200 entrevistas • margem ±2,83 p.p.
DataTrends
Campo: 15 a 17/09/2026
Raquel Lyra
46%
João Campos
38%
2º turno
Raquel Lyra
49%
João Campos
41%
1.200 entrevistas • margem ±2,83 p.p.
AtlasIntel
Campo: 11 a 16/09/2026
Raquel Lyra
48,7%
João Campos
45,6%
2º turno
Raquel Lyra
51,1%
João Campos
47,3%
1.793 entrevistas • margem ±2 p.p.
RealTime Big Data
Campo: 10 a 14/09/2026
Raquel Lyra
43%
João Campos
44%
2º turno
Raquel Lyra
44%
João Campos
44%
1.600 entrevistas • margem ±2 p.p.
Múltipla
Levantamento divulgado em 15/09
Raquel Lyra
44%
João Campos
39%
2º turno
Raquel Lyra
49%
João Campos
41%
900 entrevistas • margem ±3,3 p.p.
Cenários de 2º turno
Percentuais divulgados pelos institutos
AtlasIntel — Raquel
51,1%
AtlasIntel — João
47,3%
DataTrends — Raquel
49%
DataTrends — João
41%
Múltipla — Raquel
49%
Múltipla — João
41%
Datafolha — Raquel
51%
Datafolha — João
44%
RealTime — Raquel
44%
RealTime — João
44%
Pesquisas exibidas
05Levantamentos recentes de setembro de 2026.
Institutos
05Revista Total, DataTrends, AtlasIntel, RealTime Big Data e Múltipla.
Margens
2 a 3,3Pontos percentuais, conforme cada levantamento.
